
Allan Kardec
Educador, pesquisador e codificador da Doutrina Espírita.
Rivail, o educador
Hippolyte Léon Denizard Rivail nasceu em 3 de outubro de 1804, na cidade francesa de Lyon, em uma antiga família lionesa. Décadas depois, esse mesmo homem passaria a ser conhecido mundialmente como Allan Kardec, ao dedicar-se a uma investigação metódica de fenômenos que marcariam o início da sistematização da Doutrina Espírita.
Ainda na infância, por volta dos 11 anos, seus pais o enviaram para estudar em Yverdon, na Suíça, no Instituto de Educação fundado e dirigido pelo renomado pedagogo Johann Heinrich Pestalozzi. Foi nesse ambiente que Rivail se formou como educador e consolidou uma visão moderna de ensino, fundamentada na observação, na prática e no desenvolvimento moral e intelectual do aluno.
Acredita-se que Rivail tenha permanecido em Yverdon até 1822, período em que não apenas estudou, mas também auxiliou no ensino — já que os alunos mais aplicados podiam ser elevados à função de submestres, apoiando a formação dos demais. Ao retornar à França, estabeleceu-se em Paris, onde passou a lecionar e a atuar intensamente no campo da educação.
Nessa fase, Rivail também se interessou pelo mesmerismo (ou magnetismo animal), tema bastante discutido no século XIX. Frequentou os trabalhos da Sociedade de Magnetismo de Paris e tornou-se ele próprio um magnetizador, estudando com seriedade um campo que, para muitos, representava uma fronteira entre ciência, psicologia e fenômenos ainda pouco compreendidos.
Além de professor, Rivail foi um autor prolífico. Produziu diversas obras pedagógicas e escreveu tratados relacionados à educação pública. Em 1825, fundou e dirigiu uma Escola de 1º Grau, baseada na metodologia inovadora aprendida com Pestalozzi. No ano seguinte, criou o Instituto Técnico Rivail, inspirado no modelo do Instituto de Yverdon.
Em alguns períodos, Rivail enfrentou dificuldades financeiras. Ainda assim, não interrompeu sua missão de educador. Trabalhou como contabilista, mas manteve as noites dedicadas ao ensino e à produção intelectual. Demonstrando forte compromisso social, também organizou em sua própria casa cursos gratuitos sobre diversos assuntos, voltados a alunos carentes.
Em 1832, casou-se com a professora Amélie-Gabrielle Boudet, que se tornou sua companheira e colaboradora constante em sua trajetória.


Da Observação à Codificação
Ele não aceitou as “mesas girantes” como algo sobrenatural de imediato, nem se contentou com explicações fáceis. Preferiu investigar com serenidade.
O primeiro contato com os fenômenos espíritas
Por volta de 1850, espalhou-se pela Europa — especialmente em Paris — uma nova “moda” nos salões: reuniões em torno de mesas que giravam, batiam e aparentemente respondiam a perguntas por meio de pancadas. Para muitos, era apenas entretenimento; para outros, um mistério instigante.
Convidado a presenciar tais ocorrências, Rivail inicialmente não demonstrou interesse. No entanto, por insistência de amigos, em maio de 1855 ele decidiu observar com atenção. Foi então que percebeu algo decisivo: os fenômenos não se resumiam a movimentos aleatórios; havia neles indícios de organização, intencionalidade e, principalmente, uma causa inteligente por trás das respostas.
Prosseguindo nas pesquisas, Rivail concluiu que essa causa se apresentava como sendo os Espíritos — consciências de pessoas que já haviam vivido na Terra. Ele também constatou algo importante: os Espíritos comunicantes não eram todos iguais. Variavam em conhecimento, maturidade e moralidade, o que exigia ainda mais critério na análise.
Rivail então ampliou e organizou o trabalho. Observou os fenômenos mediúnicos em diversos aspectos, revisou cerca de cinquenta cadernos de comunicações, elaborou perguntas, reuniu respostas e contou com a colaboração de mais de dez médiuns. Seu objetivo não era construir uma crença baseada em emoção, mas investigar um conjunto de fatos e extrair deles conclusões consistentes.
Da observação rigorosa e da reflexão filosófica, Rivail formou convicções acerca de temas centrais como: a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente e a vida futura, e o sentido do progresso da Humanidade.
Segundo Kardec, foi da comparação, organização e harmonização dessas respostas — muitas vezes “retocadas no silêncio da meditação” — que surgiu a primeira edição de O Livro dos Espíritos, marco inaugural da codificação.

Kardec, o codificador
Para publicar as obras espíritas e distingui-las da produção pedagógica que já possuía como educador, Rivail adotou o pseudônimo Allan Kardec. De acordo com o relato tradicional, essa escolha teria ligação com uma revelação atribuída ao Espírito Zéfiro.
Mais importante do que a origem do pseudônimo, porém, é compreender o papel que Kardec atribuía a si mesmo: ele não se considerava “autor” da Doutrina como quem cria uma filosofia do zero, mas sim alguém responsável por coletar, coordenar, organizar e divulgar os ensinos, submetendo tudo a critérios de lógica e universalidade. Por essa razão, foi chamado de “O Codificador”.
Em janeiro de 1858, Kardec iniciou a publicação da Revista Espírita, periódico mensal onde respondia dúvidas, analisava casos, discutia críticas e registrava reflexões. Ele dirigiu a revista até o fim de sua vida.
No mesmo ano, fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em 1º de abril de 1858, que se tornaria referência de organização para estudos e experiências.
As cinco obras fundamentais
A codificação espírita se sustenta sobre cinco obras principais, publicadas entre 1857 e 1868.
Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sem cessar, tal é a lei.
— Inscrição no túmulo de Allan Kardec, no Cemitério Père-Lachaise, Paris.

Desencarnação e legado
Em 31 de março de 1869, em Paris, Allan Kardec desencarnou enquanto se mantinha ativo em seus trabalhos de estudo, organização e planejamento de novas ações doutrinárias e assistenciais.
Sua trajetória permanece marcada por duas grandes frentes: a dedicação exemplar à educação e a tarefa de codificar a Doutrina Espírita. Por meio desse trabalho, milhares de pessoas passaram a encontrar fundamentos para refletir sobre as leis morais, a vida espiritual e a responsabilidade individual, buscando nisso consolo, bom ânimo e esperança diante dos desafios da existência.