
Chico Xavier
Médium, servidor e instrumento de paz.
Infância e origens
Nascido em Pedro Leopoldo, em 2 de abril de 1910, Francisco Cândido Xavier veio de uma família simples: era filho do operário João Cândido Xavier e da lavadeira Maria João de Deus. Desde cedo, sua vida foi marcada por dificuldades materiais e por experiências espirituais que, mais tarde, ele interpretaria à luz do Espiritismo.
Ainda criança, aos cinco anos, Chico perdeu a mãe, e a família passou por um período especialmente duro. Diante das limitações financeiras, o pai precisou contar com o apoio de amigos e parentes para cuidar dos filhos. Nesse intervalo, Chico viveu com a madrinha Rita de Cássia, em um contexto de maus-tratos e sofrimento emocional. O próprio relato tradicional de sua biografia aponta que foi nessa fase que ele já demonstrava uma mediunidade bastante evidente, que se manifestava em percepções, visões e experiências que ele não conseguia explicar pelos meios comuns.
Segundo a narrativa biográfica, foi também nessa época que Chico teria vivido seu primeiro encontro espiritual com a mãe já desencarnada, enquanto orava no quintal. A mensagem que ele teria recebido — de perseverança e fortalecimento interior — aparece como um elemento simbólico importante em sua trajetória, pois antecipa o tom de renúncia e resiliência que marcaria sua vida adulta.
Quando Chico tinha cerca de nove anos, seu pai se casou com Cidália Batista, descrita como uma mulher caridosa e acolhedora. Ela teve um papel decisivo na reorganização da família, reunindo os filhos novamente sob o mesmo teto e incentivando Chico a frequentar a escola pública. Ele concluiu o curso primário em 1924, mas não pôde continuar os estudos formais, passando a trabalhar cedo para ajudar em casa — uma realidade comum às famílias mais pobres daquele período.


Da Dor à Luz
De uma infância marcada pelo sofrimento e pela perda, emergiu uma vida inteira dedicada ao consolo e ao serviço ao próximo.
O despertar da mediunidade
Já na juventude, aos 17 anos, Chico enfrentou uma nova perda: a morte da madrasta, que era uma de suas principais referências afetivas. Nesse mesmo período, a família lidou com a crise de uma irmã que apresentava graves desequilíbrios emocionais, interpretados então como associados a um processo obsessivo. A busca por auxílio e orientação levou ao contato mais direto com o meio espírita, e ali Chico teve participação em sua primeira reunião espírita, realizada em sua própria casa.
Esse momento costuma ser descrito como uma “virada” na sua história, porque a mediunidade que já existia desde a infância passou a ser compreendida dentro de uma estrutura doutrinária e de um compromisso de trabalho contínuo.
Em julho de 1927, inicia-se sua prática regular da psicografia, que se tornaria sua marca mais conhecida. Em 1931, teria ocorrido a primeira manifestação do Espírito Emmanuel, apontado como seu orientador espiritual. A tradição espírita relata que ele teria alertado Chico sobre a exigência do caminho: trabalho persistente, responsabilidade moral e esforço constante — resumidos em uma diretriz que ficou famosa por sua repetição: disciplina como condição de sustentação do serviço mediúnico.

O médium e a obra
O impacto público de sua produção mediúnica ganhou força em 1932, com a publicação de Parnaso de Além-Túmulo, obra que reuniu poesias atribuídas a diversos autores já desencarnados e que repercutiu amplamente. Paralelamente, Chico ingressou no serviço público federal, trabalhando no Ministério da Agricultura, onde manteve uma rotina discreta e constante, reforçando a imagem de alguém que conciliava deveres profissionais com o compromisso espiritual sem buscar prestígio ou vantagens pessoais.
Em 1935, publicou Cartas de uma Morta, atribuída ao Espírito de sua mãe, obra que se tornaria significativa para muitos leitores por seu tom de consolo e esperança. Já em 1943, inicia-se outra fase marcante: a presença do autor espiritual André Luiz, cuja obra mediúnica atribuída por Chico formaria uma extensa série, começando com Nosso Lar.
Essa coleção teve grande influência por apresentar uma narrativa detalhada — em linguagem acessível — sobre a vida espiritual, o trabalho no plano invisível e o valor do esforço moral no cotidiano.
Além da psicografia, a biografia tradicional de Chico menciona que ele teria exercido diferentes modalidades mediúnicas, como psicofonia, vidência, audiência e atividades de assistência espiritual. Também são citados episódios de xenoglossia (mensagens atribuídas a idiomas que ele não dominava). Independentemente da forma como cada pessoa interpreta esses fenômenos, o traço mais repetido em sua história é o modo como ele conduzia tudo com simplicidade pessoal e foco no amparo ao próximo.
Palavras que iluminam
Deus nos concede, a cada dia, uma página de vida nova no livro do tempo. Aquilo que colocarmos nela, corre por nossa conta.
— Chico Xavier / Emmanuel
Fico triste quando alguém me ofende, mas, com certeza, eu ficaria mais triste se fosse eu o ofensor... Magoar alguém é terrível!
— Chico Xavier
Cada boa ação que você pratica é uma luz que você cria em torno de seus próprios passos.
— Chico Xavier
Uberaba e o serviço ao próximo
Em 1959, Chico mudou-se para Uberaba, onde intensificou suas atividades em reuniões públicas na Comunhão Espírita Cristã. Seu trabalho, a partir daí, ficou muito associado ao acolhimento de famílias, especialmente por meio de cartas psicografadas que buscavam levar consolo a mães e parentes enlutados.
Em torno desse aspecto, formou-se uma das imagens mais conhecidas de Chico: a do médium que, com delicadeza e discrição, tentava oferecer esperança a quem sofria, sem transformar dor alheia em espetáculo.
Ao longo da vida, atribui-se a ele a psicografia de mais de 400 livros, com mensagens vinculadas a autores espirituais diversos — frequentemente citados, por exemplo, Bezerra de Menezes e outros nomes recorrentes na literatura espírita, além de referências ligadas à história da educação e da caridade, como Anália Franco. Um ponto muito destacado é que Chico teria cedido os direitos autorais de suas obras a instituições espíritas e entidades assistenciais, mantendo-se com recursos próprios.
Seu reconhecimento nacional também se ampliou quando participou do programa Pinga-Fogo, em 28 de julho de 1971, em uma transmissão ao vivo que se estendeu muito além do tempo previsto. O episódio ficou marcado por grande repercussão popular e por ter levado temas espíritas ao debate público.
Marcos de uma vida dedicada ao próximo
92 anos de existência marcados pelo serviço, pela psicografia e pela caridade.
1910
Nascimento em Pedro Leopoldo
1927
Início da psicografia
1931
Primeira manifestação de Emmanuel
1932
Parnaso de Além-Túmulo
1944
Nosso Lar (André Luiz)
1959
Mudança para Uberaba
1971
Programa Pinga-Fogo
2002
Desencarnação
Deus nos concede, a cada dia, uma página de vida nova no livro do tempo. Aquilo que colocarmos nela, corre por nossa conta.
— Mensagem atribuída ao Espírito Emmanuel, psicografada por Chico Xavier.

Desencarnação e legado
Chico esteve envolvido em campanhas de arrecadação e distribuição de alimentos, além de atividades de assistência social ligadas a reuniões fraternas e apoio a famílias em situação de vulnerabilidade. A imagem que sua biografia projeta é a de uma vida centrada em valores como caridade, amizade, disciplina, simplicidade e renúncia, vistos como pilares do que muitos chamam de “mediunidade sublimada” — isto é, mediunidade colocada a serviço do bem, do consolo e da melhoria moral.
Do ponto de vista da saúde, sua vida adulta foi acompanhada por fragilidades físicas e doenças recorrentes, com registros de problemas cardíacos, crises de labirintite, hipertensão, glaucoma (que comprometeu fortemente a visão), além de cirurgias e limitações de mobilidade e fala em diferentes períodos. Ainda assim, sua rotina de trabalho e atendimento ao público foi mantida por décadas, o que reforçou, para seus admiradores, a ideia de perseverança e entrega.
Chico Xavier desencarnou em Uberaba, em 30 de junho de 2002, em decorrência de uma parada cardiorrespiratória — data que, simbolicamente, coincidiu com a comemoração nacional do pentacampeonato do Brasil na Copa do Mundo de futebol, algo frequentemente lembrado em relatos populares sobre sua partida.
